quarta-feira, 11 de março de 2009

Acidentes de Trânsito

Acidentes de ônibus revelam fadiga dos motoristas

Os recentes e graves acidentes de ônibus nas rodovias brasileiras, particularmente de linhas interestaduais, revelam a ponta de um iceberg: a fadiga dos motoristas profissionais.
Nesse período do ano, muitas empresas colocam motoristas para realizar várias viagens sem o repouso necessário. Por isso, que a maioria dos acidentes ocorrem de madrugada e no início da manhã.
As agências reguladoras, particularmente a ANTT, precisam preparar esquemas operacionais que sejam analisados também por médicos. Mais do que a distância a ser percorrida, média de velocidade e eventuais paradas, é preciso saber se o ser humano que está atrás do volante tem condições de realizar a viagem com segurança.
De nada adiantam ônibus novos, com vistoria em dia, quando não avaliam a carga horária do motorista. Recentemente a ARTESP, responsável por linhas intermunicipais no Estado de São Paulo, ao informar sobre um acidente, em que o motorista invadiu pista interditada, batendo num caminhão da concessionária da rodovia, que causou inclusive a morte do motorista, limitou a checar a vistoria do veículo. Não foi verificar a escala do motorista.
Isso é fugir da responsabilidade de zelar pela segurança de todos: motoristas, passageiros e demais usuários das rodovias.
É preciso entender que a segurança está nas mãos desses profissionais e que cabe ao poder público garantir que eles tenham as condições ideais para dirigir. Ao menos em termos de jornada de trabalho e salário justo.

Enquanto os motociclistas morrem os fabricantes comemoram o lucro

Na medida em que mais pessoas estão adquirindo motocicletas, pelo baixo custo e boas condições de compras, teremos mais acidentes e vítimas fatais. Em 1990 foram 299 mortos, em 2006 morreram 6.734. O custo de um acidente fatal com motocicleta é estimado em R$ 50.000,00 . Ao invés de parar com essa carnificina a sociedade prefere usufruir dos benefícios dos serviços do “mata o boy” . A comodidade do serviço que eles oferecem é fruto da imprudência. Afinal, para ganhar velocidade é preciso trafegar entre veículos, divindo a faixa que foi concebida para ter apenas um ocupante. Pela velocidade que trafegam , no meio do trânsito caótico, simplesmente não são vistos pelos demais motoristas. É quase uma roleta russa passar entre tantos carros, em velocidade, com pontos cegos que se repetem. Na maioria dos acidentes, o motorista simplesmente não vê o motociclista. A única coisa que consegue ver é o corpo, as vezes sem vida, no chão.

Enquanto isso, os executivos dos fabricantes e importadoras de motocicletas, comemoram os lucros e aumento de vendas. Sequer atuam sériamente para minimizar os acidentes. Esquecem que podemos produzir gente nas fábricas, mas a linha de produção de seres humanos, com suas histórias e famílias, só Deus.

Não estamos aprendendo com os acidentes

Acidentes, estatísticas, notícias de mortos e feridos. Vidas que se perdem nas nossas estradas. Na maioria dos casos, atribuídas á fatalidade ou falhas humanas. Autoridades dão entrevistas, explicam mas não resolvem. Em alguns casos temos boas medidas, baseadas mais no impulso de fazer algo do que realmente no planejamento e metas objetivas.
Isso fica claro quando perguntamos ás autoridades quais são as metas de redução de acidentes. Não há respostas baseadas em dados, estudos e políticas fundamentadas.Há o desejo de conseguir resultados, mas isso não basta. A chamada “lei seca ao volante” foi uma delas. Sem equipamentos para fiscalização, os resultados foram limitados nas estradas, embora mais visíveis em área urbana, mesmo com a falta de planejamento.
O excesso de velocidade é outro exemplo. Ao invés de fiscalizar, o governo federal deixou os contratos dos radares e lombadas eletrônicas vencer. Ficamos com rodovias sem fiscalização. E ainda foi criada Resolução do Ministério das Cidades que obriga as autoridades indicarem onde precisamente estão os radares em operação.
Acidentes acontecem, ocupam as manchetes, rendem entrevistas, mas pouco é feito com as informações que eles oferecem. Precisamos aprender com os acidentes. Utilizar as perícias para detectar quais são as principais causas e as medidas que devem ser tomadas. E tomá-las.
No caso dos acidentes envolvendo caminhões e ônibus, devemos utilizar as informações preciosas dos discos diagrama do tacógrafo ( a caixa preta dos veículos pesados). Temos que combater o excesso de jornada, a escravidão sobre rodas, que provoca alguns dos acidentes mais graves.
No caso dos ônibus, autoridades que concedem autorizações para operação de linhas regulares ou viagens de turismo e fretamento, precisam acompanhar as perícias, analisar as causas e tomar providências. Inclusive, junto com peritos, avaliar até que ponto em muitos acidentes, os veículos não apresentam defeitos fruto de falha de projeto ou falha na linha de produção.
Agências reguladoras também devem exigir que as concessionárias de rodovias apresentem as imagens que possuem de acidentes para peritos. Essa informação não pode ser de uso exclusivo das concessionárias de rodovias. Algumas podem revelar falhas em obras ou sinalização, que são de responsabilidade dessas empresas e precisam ser corrigidas.
Precisamos criar um departamento ou órgão oficial que reúna especialistas e, cujo foco seja analisar os acidentes e propor medidas que sejam efetivamente aplicadas.
O que não podemos é deixar informações preciosas dos acidentes, estatísticas, imagens, perícias, abandonadas e dispersas, e não utilizá-las para estabelecer metas e ações objetivas que produzam resultados concretos.
Afinal, estamos falando de pessoas e não números. Seres humanos e não manchetes.
Não podemos deixar que vidas sejam perdidas em vão e não tenhamos sequer a decência de usarmos essas dramáticas experiências em prol da redução de acidentes e simplesmente deixarmos elas se perderem nas gavetas da inércia.
Já é hora da redução de acidentes ser manchete, mas para ser notícia, é preciso um conjunto de ações práticas e não apenas promessas e desejos, ou análises simplistas sobre as razões do aumento dos acidentes.

Sumiram as estatísticas dos acidentes

A PRF- Polícia Rodoviária Federal tem realizado um grande esforço para reduzir acidentes nas estradas. O aumento da fiscalização, principalmente após a lei seca ao volante, produziu resultados importantes. Entretanto, está na hora de haver melhor divulgação com relação as estatísticas de acidentes nas rodovias federais.
Há mais de dois anos que não estão disponíveis online. E qualquer interessado nos dados, para realizar estudos, artigos, comparações, precisa entrar em contato com o DPRF para solicitar as informações.
É fundamental que os dados sejam acessíveis, de vários anos, e fiquem no site da DPRF. Isso irá permitir muitas contribuições na análise dos mesmos, que poderão mostrar novas alternativas, apresentadas pela sociedade, para reduzir acidentes.
Inclusive, alguns dados estatísticos estavam disponíveis no site e sumiram, justamente após balanço da PRF sobre os acidentes em 2008, justamente quando muitos interessados foram estimulados a pesquisar as estatísticas.
Está havendo uma certa preocupação da PRF de enfatizar redução no número de vítimas. Mas na prática os acidentes vem aumentando e o número de feridos também.
A redução de mortos, quando aumentam os acidentes em quase 10%, é contraditória e precisa de esclarecimentos sobre a metodologia utilizada ou explicações bem fundamentadas que justifiquem esse resultado. Principalmente, quando comparamos com estatísticas apuradas por estados importantes como São Paulo, onde nos últimos 10 anos, sempre que houve aumentos dos acidentes, aumentaram mortos e feridos.
Por isso é preciso facilitar o acesso aos dados, disponibilizar na web, abrindo assim espaço para reflexão e análise da sociedade. Da mesma forma é preciso metas objetivas de redução de acidentes, feridos e mortos.
Revelando a estratégia a ser adotada, a meta a ser atingida. Com isso é possível avaliar melhor os resultados práticos do que está sendo feito pelo governo.
Atribuir mais acidentes e feridos ao aumento da frota, melhoria da economia, com tem sido feito, é uma estrada perigosa. Afinal, na Europa, nos EUA e na Ásia, tem havido aumento da frota, crescimento econômico, entretanto os acidentes vem caindo, bem como as vítimas, devido a políticas públicas baseadas em metas e resultados.

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